domingo, 24 de outubro de 2010

No Grand Canyon


Estou a escrever já em Page, AZ, depois de um dia bem passado no Grand Canyon. Iniciámos cedo, cerca das 8 horas, a exploração do Canyon e pelas 8h30 estávamos a iniciar a descida do Bright Angel Trail, depois de lermos os aterrorizadores avisos dos perigos da descida: impressiona a foto e a história duma corredora de maratona que, em boa forma, morreu de desidratação há poucos anos,  quando fez este trail sem as devidas precauções. Descemos durante  45 minutos e subimos em cerca de uma hora. Ainda fomos bem fundo, mas muito longe de atingirmos o rio Colorado.
A primeira sensação que temos ao iniciar a descida é a entrada num mundo diferente, sem o ruído do vento e dos apetrechos humanos que há cá no cimo; depois, a temperatura começa a subir sensacionalmente e muito depressa estamos a desapertar os agasalhos com que nos protegíamos do frio matinal cá do topo. E a paisagem que vai mudando a cada curva do trail é indescritível, pelo menos por quem como eu não tem arte para tal. Agora são barreiras perpendiculares de rocha vermelha ou cinza claro com centenas de metros altura, a que se sobrepõem múltiplas camadas de diferentes tipos de materiais, variados nas cores, de verde a castanho, de cinza a quase negro pesado, aqui e ali dando sustento a árvores da família do pinheiro e do carvalho. Daqui a pouco, é uma cabra selvagem que corre veloz e ágil à beira do precipício. Mais abaixo, é um esquilo pequeno, do tamanho dum rato que se deixa ficar posando para as nossas fotos e dos demais turistas. 
Depois, é um condor que, do alto duma rocha instável, a 40 metros do nosso trilho, faz o seu exercício matinal de secagem das penas com as asas abertas, depois duma noite de chuva pesada. E há ainda aquele pássaro do tamanho dum corvo português, todo azul, dum azul brilhante que só a natureza consegue produzir, que nos acompanha vários metros na subida, procurando alimento nas fezes das mulas que desceram o trilho pela manhã, e que fotografamos à vontade, tal é a habituação da ave às centenas de humanos que diariamente por ali passam. 
Sim, estamos quase no fim de Outubro e o movimento aqui é uma surpresa: os hotéis estão esgotados, quer os de dentro do parque quer os da cidade mais próxima (Tusayan), os parques de estacionamento mais centrais estão superlotados , os restaurantes e as lojas de recordações estão cheios e por toda a parte os trilhos e os pontos de observação estão bem compostos de pessoas. Faz-nos pensar como será no pino do verão, quando as famílias americanas se deslocam para aqui em férias. Não há dúvida, este é um dos locais turísticos mais visitados dos EUA. E bem se percebe. Quatro de nós já cá havíamos estado e continuamos a ficar deslumbrados com esta maravilha. Não me canso de usar as palavras de Miguel Torga para situações extremas deste tipo: isto é um excesso da natureza. E não há nada que consiga reproduzir o que o olho humano aqui capta. Isto tem que ser vivido aqui: as  multi-cores e o jogo de sombras das várias formações, a imensidão dos espaços em profundidade e em altura, as formas, às vezes bizarras, das várias elevações que povoam este espaço, o serpenteado do barrento rio Colorado, que se observa nos pontos de observação mais a leste, enfim, tantas coisas que nos esmagam e ao mesmo tempo nos deixam felizes por estarmos vivos e termos a sorte de poder usufruir de tanta beleza.
Uma palavra para a organização do parque, que, como todos os parques nacionais dos EUA, são um bom exemplo de organização e rigor de gestão pública ao serviço de todos. Destaca-se o estado de conservação e de limpeza de toda a área e a simpatia do pessoal. Desde a minha primeira vinda cá há treze anos, nota-se um desenvolvimento enorme nas infraestruturas do parque, com novos hotéis e serviços de apoio, os quais para além do serviço que prestam são evidentemente uma fonte de receita importante para a auto-sustentação do parque. Coisas que só estes senhores que moram  neste jovem país sabem fazer. Um bom exemplo para muito gente do nosso cantinho. A propósito, dentro de dias haverá aqui eleições para governadores de estado e para congressistas do congresso nacional. A nossa surpresa é que para além de meio dúzia de ourtdoors que vimos em  Las Vegas, não se dá conta da campanha no exterior: não cartazes, não há bandeiras nas ruas, não há candidatos nos cruzamentos a cumprimentar os automobilistas como havia há anos atrás. Tudo se passa na televisão em debates e anúncios pagos (muitos). Enfim, sinal dos tempos, e não tarda nada que os imitadores por esse mundo fora façam da mesma forma. Quero dizer: um dia destes ficaremos livres daquela carrada de cartazes colados nas paredes, chaveiros, isqueiros, saquetas, etc, etc, que as nossas campanhas à moda antiga nos oferecem. O ambiente agradece e nós também.